segunda-feira, novembro 13, 2006

Imagino a delicadeza. A subtileza.
O toque quase aéreo, quase
aereamente brutal.
Ser tocado pelas vozes como ser ferido
pelos dedos, pelos rudes cravos
da planície.
Ser acordado, acordado.
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
Imagino que as vozes são escadas.
Vozes para atingir o canto.
O canto é o meu corpo purificado.

Herberto Helder.

quinta-feira, novembro 09, 2006

O espírito tornado um com o espírito cujo sopro
Torna a tarde nos bosques sublime
Reside tão extasiado numa presença que disse
Coisas mais elevada que a vida e mais serenas que a morte,
Triunfantes e silenciosas como o tempo.

Algernon Charles Swinburne

segunda-feira, novembro 06, 2006

de pétalas de malmequer constróis a túnica de pele que em ti amo. flor de sangue fumegante, mudo, em espanto, sou oferenda e habito o breve instante da folha branca onde, por não menos breves instantes, tacteio a veemência dos dias. a vida. como as horas ou a obstinação que atravessa o navegar dos rios em rotas indiferentes ao clamor do intolerável.

Alexandre Aroso

sábado, novembro 04, 2006

Íamos à Barca. Não que navegasse:
descia lentamente até ao rio
toda milho e morulhar de pássaros.

Lá perto as pedras recebiam
carícias de água fria coruscante
e verde. O sol crescia.

Pedro Tamen

quinta-feira, novembro 02, 2006

Como o vento às sementes do pinheiro
Pelos campos atira e vai levando...
E, a um e um, até ao derradeiro,
Vai na costa do monte semeando:

Tal o vento dos tempos leva a Ideia,
A pouco e pouco, sem se ver fugir...
E nos campos da Vida assim semeia
As imensas florestas do povir!

Antero de Quental

segunda-feira, outubro 30, 2006

Oh! sonho doce, tão doce, demasiado amargo e doce,
Cujo acordar deveria ter lugar no Paraíso,
Onde as almas transbordantes de amor vivem e se encontram
Onde olhos sedentos anelantes
Observam a lenta porta
Que abrindo-se, deixando entrar, não deixa mais sair.

Dos poetas Pré-Rafaelistas

sexta-feira, outubro 27, 2006

São o que eram, estão
Em casa, onde a flor se alegra
Do calor inocente e o espírito sopra
Sussurante envolvendo as árvores escuras.
Mas os irreconciliados viram-se
E apressam-se a estender as mãos
Antes que a luz amiga
Decline e a noite venha.

Friedrich Holderlin

A fotografia foi tirada daqui.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen